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A força histórica dos pobres: profecia ou demagogia?
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A Dimensão Socioestrutural da Opção Preferencial pelos Pobres

A Igreja da América Latina ajudou o conjunto da Igreja a redescobrir nas últimas décadas a centralidade dos pobres e marginalizados na revelação e na fé cristãs. Apesar das ponderações, das advertências, dos receios e das “precisões”, admite-se, geral, que o cuidado dos pobres e marginalizados é constitutivo da fé cristã.

E essa consciência foi assumida de modo explícito inclusive pelo magistério da Igreja de Roma. Na Carta Encíclica Solicitudo rei sociales, 1987, João Paulo II fala da “opção ou [do] amor preferencial pelos pobres” como um dos temas e uma das orientações “repetidamente ventilados pelo Magistério nestes últimos anos” (SRS, 42). Na Carta Encíclica Deus caritas est, 2005, Bento XVI fala da caridade como um dos “âmbitos essenciais” da Igreja.

Ela “pertence tanto à sua essência como o serviço dos sacramentos e o anúncio do Evangelho” (DCE, 22). E na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 2013, Francisco afirma que “no coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres” (EG, 197), que “esta preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os cristãos” e que, “inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma opção pelos pobres, entendida como uma ‘forma especial de primado da prática da caridade cristã, testemunhada por toda a tradição da Igreja’” (EG, 198).

Mas há uma tendência muito forte na Igreja a reduzir a opção pelos pobres ou o serviço da caridade à sua dimensão assistencial ou ao que se convencionou chamar “obras de misericórdia”: visitar doentes, idosos e encarcerados; distribuir alimentos e roupas; socorrer pessoas suas necessidades imediatas e cotidianas etc.

Sem dúvida, isso é necessário e é evangélico. Mas nem é suficiente nem esgota o serviço da caridade ou a opção pelos pobres na Igreja. Há também uma dimensão igualmente necessária e evangélica que diz respeito à organização da sociedade e à luta pela justiça, enquanto luta pela garantia de direitos dos pobres e marginalizados. É a dimensão socioestrutural da opção pelos pobres ou do serviço da caridade.

E é precisamente sobre esta dimensão que queremos tratar neste artigo. Primeiro, mostrando como a Igreja foi tomando consciência desta questão nas últimas décadas. Depois, explicitando que consiste a dimensão estrutural e como se dá o processo de transformação da sociedade. Por fim, indicando as formas como a Igreja vive e dinamiza a dimensão socioestrutural da opção pelos pobres ou do serviço da caridade.

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