Não é fácil transformar as estruturas da sociedade. Não só porque elas estão institucionalizadas e mesmo legalizadas; mas porque tem gente que se beneficia com elas e reage com todos os meios contra qualquer tentativa de modificação e, sobretudo, de transformação da ordem social vigente.
Sem falar que esses grupos que se beneficiam com a ordem social vigente controlam a atividade econômica, a organização política do Estado, a produção do conhecimento e a difusão das informações, exercendo um domínio inclusive sobre as vítimas dessa forma de organização da sociedade.
Mas dizer que não é fácil não significa dizer que é impossível. Assim como a sociedade foi organizada desta forma através da ação de pessoas e grupos sociais, ela pode ser modificada ou mesmo transformada através da ação de pessoas e grupos sociais. É verdade que é mais fácil manter a estrutura ou ordem social vigente que transformá-la; os costumes, as regras, as normas, as leis e as instituições tendem sempre a conservar a ordem vigente.
E é verdade que nem todas as pessoas nem todos os grupos têm o mesmo poder de ação e intervenção sociais: as relações de poder são extremamente desiguais nossa sociedade. Mas a história é farta de exemplos de grupos sociais subalternos (negros, mulheres, indígenas, camponeses, operários etc.) que através de sua organização e articulação com outros setores da sociedade foram capazes de intervir e alterar a ordem social vigente.
É que a subordinação também tem seus limites. Há momentos que a necessidade se impõe com tal força que se transforma indignação e revolta: quando a fome aperta, o povo saqueia o comércio; quando o salário atrasa, o povo faz greve; quando não há mais alternativa de trabalho e moradia, o povo ocupa terra no campo e na cidade; quando o governo não garante condições de vida no campo, o povo ocupa estradas e prédios públicos; quando não faz demarcação de terras indígenas e quilombolas, o povo faz por sua própria conta; e assim por diante.
