Não vamos entrar aqui na discussão acerca da gênese da sociedade e de seu processo de estruturação, uma discussão importante e complexa na filosofia e nas ciências sociais. Partimos diretamente do fato de que nascemos e vivemos uma sociedade concreta, organizada de uma forma bem determinada; e de que essa sociedade, organizada desta forma, condiciona e determina grande medida, para o bem e/ou para o mal, a vida de todas as pessoas.
Certamente, esta sociedade foi organizada desta forma por pessoas e grupos muito concretos. Não é fruto do acaso nem é um dado natural. Não há nenhum determinismo aqui. Mas uma vez organizada desta forma, ela adquire certa autonomia relação às pessoas e aos grupos concretos e passa a condicionar, possibilitando ou impossibilitando, a vida das pessoas e dos grupos.
Essa foi a grande descoberta das ciências sociais no século XIX. Houve e há muita discussão torno da compreensão da sociedade e da relação entre a sociedade e os indivíduos. Mas uma coisa é certa: a sociedade não é a mera soma dos indivíduos. Ela tem certa autonomia relação aos indivíduos e interfere diretamente na vida das pessoas: ninguém escolhe nascer rico ou pobre; não é natural que a mulher seja subordinada ao homem (até na estrutura gramatical da língua),
que o negro seja inferior ao branco (nas piadas, nos postos de trabalho, nos salários etc.), que determinadas pessoas e profissões sejam superiores a outras (médico X gari, catador Xpresário etc.); que o Estado garanta toda infraestrutura de saneamento, transporte, segurança etc. nos bairros de classe média-alta e não nas favelas e periferias; que use o dinheiro público para construir infraestrutura para aspresas do agronegócio e destine apenas “bolsas” para a agricultura camponesa etc. Tudo isso é fruto do modo concreto como nossa sociedade está organizada.
De fato, nossa vida é muito mais condicionada e determinada pelas estruturas da sociedade do que parece. E de muitas formas: costumes, valores, regras, normas, leis, instituições, aparato policial etc. Quanto mais essa sociedade cresce e se complexifica, tanto mais cresce a interferência de seus mecanismos de organização e estruturação sociais na vida das pessoas e dos diversos grupos sociais.
