E a Conferência de Puebla (1979) reconhece que a pobreza “não é uma etapa casual, mas sim o produto de determinadas situações e estruturas econômicas, sociais e políticas” (30) e chega a falar explicitamente de “dimensão social do pecado”, de “estruturas de pecado” ou de “pecado social” (28, 70, 73, 281, 282, 452, 487, 1258).
Além da percepção dessa dimensão estrutural da injustiça e de seu caráter pecaminoso, Medellín afirmava claramente que “criar uma ordem social justa, sem a qual a paz é ilusória, é uma tarefainentemente cristã” e que “a justiça e consequentemente a paz conquistam-se por uma ação dinâmica de conscientização e de organização dos setores populares, capaz de urgir os poderes públicos, muitas vezes, impotentes nos seus projetos sociais, sem o apoio popular” (Paz 2, II).
Essas intuições foram sendo aprofundadas e desenvolvidas na reflexão teológico-pastoral na América Latina e assumidas, grande medida, pelo magistério romano para o conjunto da Igreja.
O Compêndio de Doutrina Social da Igreja, por exemplo, tratando dos “princípios da doutrina social da Igreja”, fala da “via da caridade” e, neste contexto, fala da “caridade social e política”: “A caridade social e política não se esgota nas relações entre as pessoas, mas se desdobra na rede que tais relações se inserem, que é precisamente a comunidade social e política, e sobre esta intervém, visando ao bem possível para a comunidade no seu conjunto.
Sob tantos aspectos, o próximo a ser amado se apresenta ‘em sociedade’, de sorte que amá-lo realmente, prover às suas necessidades ou à sua indigência pode significar algo de diferente do bem que lhes pode querer no plano puramente inter-individual: amá-lo no plano social significa, de acordo com as situações, valer-se das mediações sociais para melhorar sua vida ou remover os fatores sociais que causam a sua indigência.
Sem dúvida alguma, é um ato de caridade a obra de misericórdia com que se responde aqui e agora a uma necessidade real e imperiosa do próximo, mas é um ato de caridade igualmente indispensável openho com vistas a organizar e estruturar a sociedade de modo que o próximo não venha a encontrar-se na miséria, sobretudo quando esta se torna a situação que se debate um incomensurável número de pessoas e mesmo povos inteiros, situação esta que assume hoje as proporções de uma verdadeira e própria questão social mundial” (208).
