Não há muita dificuldade compreender a dimensão assistencial da caridade ou da opção pelos pobres. É um fato que nossas comunidades, nosso país e no mundo inteiro muitas pessoas são marginalizadas e passam necessidade, carecendo até das condições materiais básicas de sobrevivência. E nós devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para socorrê-las suas necessidades cotidianas.
Acontece que a pobreza e a marginalização não são fatos isolados nosso mundo. Não é apenas problema de alguns indivíduos que, por mera casualidade, circunstância ou “decisão” pessoal, encontram-se nessa situação. Certamente isso também existe: doença, catástrofe, crise familiar, desilusão amorosa, dependência química, comodismo etc. Mas isso vale para alguns casos isolados. Não explica o fenômeno massivo da pobreza e marginalização sociais nosso mundo. Em última instância, esse fenômeno é fruto do modo mesmo de estruturação e organização da sociedade.
Ele faz com que os bens e riquezas produzidos estejam concentrados nas mãos de uns poucos; faz com que amplos setores da sociedade sejam marginalizados razão de sua cultura, de sua raça, de seu sexo, de sua orientação sexual, de sua idade, de sua deficiência física ou mental, de seus delitos etc.; e reduz a natureza a mero recurso econômico para acumulação ilimitada de riquezas, causando grandes desequilíbrios socioambientais e comprometendo inclusive o futuro da vida no planeta.
Por isso mesmo, uma caridade que se queira eficaz não pode se reduzir ao nível meramente assistencial, por mais que isso seja necessário. Precisa se enfrentar também com os mecanismos sociais que produzem essa situação. Para isso é importante compreender minimamente o processo de estruturação e organização da sociedade, bem como o modo de interferir nesse processo vista da garantia dos direitos dos pobres e marginalizados. É o que faremos a seguir.
1. Estruturas da sociedade
